Feminicídio: Uma Tragédia que na grande maioria Começa na Formação da Personalidade, na Infância.


Nos últimos anos, o Brasil e o mundo têm assistido a uma alarmante escalada de feminicídios — um fenômeno cruel e devastador que reflete não apenas uma profunda crise de valores, mas também uma falha na formação emocional e social de nossas crianças e adolescentes. O feminicídio não é uma violência que surge do nada; ele é um desdobramento de uma cultura de intolerância, machismo, dominação e desrespeito que, muitas vezes, encontra suas raízes na infância.

Como especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Direitos Humanos e Neuropsicologia, acredito que a prevenção é o único caminho possível para mudar essa triste realidade. E essa mudança começa no ambiente familiar e na escola, na formação da personalidade, na capacidade de lidar com frustrações, e na construção de uma cultura de respeito e igualdade.

A importância da infância na formação de uma consciência de respeito e igualdade:

Desde os primeiros anos de vida, as crianças estão em processo de formação de valores, crenças, habilidades sociais e de regulação emocional. Nesse período, elas aprendem a lidar com emoções, frustrações, limitações e conflitos. Uma criança que cresce sem aprender a administrar suas emoções, que não tem modelos de resolução de conflitos saudáveis ou que presencia violência e desrespeito, tem maior propensão a reproduzir esses comportamentos no futuro.

A neuropsicologia aponta que o cérebro infantil possui uma alta plasticidade, ou seja, é altamente moldável por experiências. Essas experiências, positivas ou negativas, moldam circuitos neurais que influenciarão o modo como o indivíduo irá perceber o mundo, lidar com suas emoções e relacionar-se com os outros. Assim, deixar de ensinar habilidades emocionais na infância aumenta o risco de que, na fase adulta, esses indivíduos apresentem comportamentos agressivos, intolerantes e até violentos.

Aprender a lidar com frustrações: o pilar da saúde emocional e social:

Um aspecto central dessa formação é o aprendizado de lidar com frustrações. Crianças que, desde cedo, são treinadas a lidar com pequenas frustrações — perder um jogo, não receber um presente esperado, ser contrariada — desenvolvem uma resiliência emocional capaz de evitar explosões de agressividade ou comportamentos destrutivos na adolescência e na fase adulta.

Na perspectiva da TCC, a frustração é vista como uma emoção natural e, se não bem gerenciada, pode se transformar em comportamentos de agressão, intolerância ou autoaversão. O papel do educador parental, da escola e do ambiente social é ensinar a criança a entender suas emoções, reconhecer suas limitações, buscar alternativas de resolução de conflitos e desenvolver empatia pelos outros.

A negligência nesse aspecto pode contribuir para o desenvolvimento de uma visão distorcida da relação com o mundo e com o próprio corpo, criando um terreno fértil para o surgimento de comportamentos violentos, sobretudo em ambientes onde a cultura machista e a desigualdade de gênero reforçam a ideia de que o corpo feminino deve ser controlado, dominado ou desrespeitado.

Violência de gênero e cultura de machismo: raízes profundas na sociedade e na infância:

Estudos apontam que meninos que crescem em ambientes onde a agressividade é normalizada, onde o controle emocional é negligenciado e onde a mulher é vista como propriedade ou objeto, tendem a reproduzir esses padrões na vida adulta. Essa reprodução de valores nocivos reforça a cultura machista, que é um dos principais fatores que alimentam o feminicídio.

A violência de gênero, nesse contexto, é uma consequência não apenas de questões individuais, mas de uma cultura que permite, normaliza e até enaltece a submissão e a agressão. Portanto, é imprescindível atuar de forma preventiva já na infância, promovendo a educação emocional, o respeito à diversidade e o entendimento de que o amor, o afeto e o respeito não são privilégios de um gênero, mas direitos de todos.

O papel dos Direitos Humanos e da Neuropsicologia na prevenção:

A legislação brasileira tem avançado no reconhecimento e combate ao feminicídio, mas o direito por si só não é suficiente para promover mudanças sociais duradouras. É necessário promover uma cultura de respeito que também nasce na educação, no exemplo de adultos responsáveis e na formação de cidadãos conscientes de seus direitos e deveres.

Na neuropsicologia, estudos demonstram que intervenções precoces que envolvem o fortalecimento das habilidades emocionais, o estímulo à empatia e a resolução de conflitos têm potencial de transformar o funcionamento cerebral, promovendo maior controle emocional e menos impulsividade. Essas intervenções, se aplicadas durante a infância, podem reduzir significativamente comportamentos agressivos na vida adulta.

Vivências e experiências que podem transformar a trajetória de uma criança:

Ao longo da vida, experiências positivas — como diálogos abertos, exemplos de respeito, atividades que ensinem a resolução pacífica de conflitos e o incentivo à empatia — podem atuar como fatores protetores, contribuindo para formar um sujeito emocionalmente equilibrado. A escola e a comunidade têm papéis centrais nesse processo.

Por outro lado, situações de negligência, violência, preconceito e exclusão podem criar uma base de insegurança e raiva que, se não for trabalhada, pode se manifestar em comportamentos extremamente prejudiciais, inclusive feminicidas.

Concluo que, a luta contra o feminicídio é uma tarefa de todos os setores da sociedade, mas ela começa na infância. Promover ambientes saudáveis, ensinar a lidar com frustrações, desenvolver a empatia e promover uma cultura de respeito aos direitos humanos são as ações mais eficientes de prevenção.

Como especialista em TCC, Direitos Humanos e Neuropsicologia, afirmo que trabalhar emocionalmente as crianças e adolescentes, numa abordagem preventiva e educativa, é uma estratégia fundamental para transformar essa triste realidade.

Afinal, criar cidadãos conscientes, empáticos e capazes de respeitar as diferenças é o maior legado que podemos deixar para um futuro mais justo, igualitário e seguro para todos.

Seja na escola, na casa ou na comunidade, cada ato de respeito e educação emocional construirá uma sociedade menos propensa à violência, protegendo vidas e promovendo a dignidade humana. Porque, no fim das contas, o respeito não é apenas uma virtude, mas uma questão de sobrevivência.


Por: Anna Simões

Neuropsicopedagoga Institucional e Clínica.

Especialista em Bioética e Saúde.

Especialista em Neuropsicologia com Ênfase em Reabilitação Cognitiva.

Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental.

Especialista em Direitos Humanos.

Deixe um comentário